Comentários/Dados históricos
Intervalo | (Arroio Dilúvio) apresenta o registro audiovisual da caminhada realizada por André Severo e Maria Helena Bernardes nas águas do Arroio Dilúvio, em Porto Alegre no mês de agosto do ano de 2002.
Sublinhando um momento dominado por sentimentos conflitivos, entre a urgência de inaugurar uma nova identidade como artistas e o temor de mergulhar em um processo que poderia levá-los ao isolamento e à incomunicabilidade, esta ação contribuiu para compreender e afirmar o que os artistas definiriam como "estado de trânsito" - núcleo poético e existencial que nortearia as ações de Areal dali em diante. O passeio no Arroio Dilúvio - fluxo canalizado que corta a cidade de Porto Alegre no sentido Leste-Oeste, escoando toda a sorte de dejetos - foi documentada em vídeo e em fotografias por Paula Krause. Realizada antes de ser racionalizada, desejada antes de ser nomeada, esta caminhada marcou o início de Areal como uma espécie de talismã, de pen-samento-ação sem forma, sinalizando que ações artísticas podem abrir-se em vários braços e que um trabalho pode ser conhecido por pessoas diferentes, através de meios diferentes, por nomes diferentes e em condições sociais, espaciais e temporais diferentes; que um gesto poético pode conservar sua potência e afetar outras pessoas mesmo na ausência da palavra arte.
| Intervalo Il (Arroio Duro) apresenta o registro audiovisual da caminhada realizada por André Severo e Maria Helena Bernardes nas águas do Arroio Duro, em Camaquã, no mês de junho do ano de 2003. Esta caminhada foi feita um ano após a caminhada no Arroio Dilúvio que acabou por trazer à tona o trabalho "em estado de trânsito" que iria definir os modos de pensar, agir e estar no mundo destes artistas. O estímulo para a ação foi a descoberta, na cidade de Camaquã, de uma situação aparentada com a do Arroio Dilúvio, ou seja, a emergência de uma "segunda natureza": um curso de água doce transformado pelas necessidades humanas. Sem o ímpeto catártico da caminhada no Dilú-vio, a ação no Arroio Duro foi marcada pelo desfrute de possibilidades inauguradas na ação anterior e, também, por uma maior atenção às imagens que poderia gerar. O filme, registrado por Alexandre Moreira, mostra André Severo e Maria Helena Bernardes caminhando e conversando no leito do riacho, cujas águas servem à irrigação de fazendas de arroz, em Camaquã, e têm seu nível regulado por válvulas e comportas.
O anoitecer é agitado por transeuntes apressados e caminhões que fazem tremer a ponte sobre as águas. Lá embaixo, indiferente ao vai e vem da vida, um encontro transcorre serenamente entre as margens.