Comentários/Dados históricos
Katia Prates: Estamos vendo este teu trabalho Paisagem Reflexa: Ibirapuera, Dois Tempos, que se tornou um ensaio visual na edição Jardins da Revista-Valise. Para começar a nossa conversa, gostaria de saber como aconteceu o interesse por ter matérias da natureza como parte da produção de arte, inicialmente com o uso de materiais como madeira recolhida, pedras, areia e, depois, se lançando para o que vemos aqui – as matérias vivas?
Fernando Limberger: Tudo isso se relaciona com a minha ideia do que produzir em arte. Penso que deve haver um compromisso com a con- temporaneidade da produção, ou seja, estar engajado no período histórico em que vivemos.
Tenho como base da minha pesquisa e já olhando historicamente tudo o que produzi uma leitura das paisagens. Essa é a característica ou o elemento principal da minha pesquisa e o que motiva minha produção. Meu interesse é pela paisagem, seja ela natural ou construída, e tudo que ela possa representar. As paisagens são compostas por elementos e histórias. E os elementos e as histórias mudam de ambiente para ambiente. Dessa forma, os elementos da natureza que utilizo para compor os trabalhos estão presentes a partir da ideia de tentar me aproximar das histórias, dos ambientes onde atuo, para, assim, estimular reflexões sobre eles. Essa característica de recolher elementos da paisagem para recompor uma certa paisagem já vem desde meados dos anos oitenta, quando comecei a minha pesquisa e produção em arte. No início, usava elementos, como você falou, especificamente madeiras, pedaços de paus, troncos e galhos, entre outros, que são elementos já de alguma maneira mortos, mas que continuam a ter uma possibilidade de vida, pensando no ciclo contínuo de transformação dos elementos da natureza.
No passado, usava preferencialmente madeiras que eram recohidas das paisagens. Durante algum tempo, utilizei madeiras encontradas à margem do Guaíba, em Porto Alegre, que eram trazidas pela água. Mas também usei madeiras já industrializadas, que eram colocadas no aterro feito para avançar a cidade sobre o Guaíba. Levava o material recolhido para o estúdio e produzia peças tridimensionais que tratavam sobre essa paisagem em transformação.
Entrevista disponível em https://cargocollective.com/fernandolimberger/Entrvista-Revista-Valise . Acesso 9/7/2024